A cabeça do anjo

A cabeça do anjo sem auréola luminosa 
destacava, no corpo quieto, sua aprumada figura.
Fendas abertas sitiavam-lhe os movimentos:
boca e olhos esgazeados de espanto 
criavam à sua volta um trepidar anónimo;
um visionário estado de vigília que antecede as aparições.

Não sonho. Mas sim, é quase um sonho;
uma verdade latente a desfazer outra verdade 
um subsistir estranho na aprumada decrepitude 
de quem pretende mentir honestamente.
Fórmula de autodestruição
de quem caminha deliberadamente para a cruz.

Mergulhou o anjo seu olhar acutilante sobre o mundo
e disse uma absurda futilidade numa voz de oráculo:	
- a mulher nasceu mais velha que o homem.

Daí em diante fecharam-lhe o corpo num jazigo de vidro.

Foto de Francesco Ungaro no Pexels

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