A Madona de Natália

Foi o frio que afiou os dentes ao sol baço do inverno, o frio que massaja a pele e esbanja incenso pelas cúpulas das catedrais.                           Existir é, por estes dias, viver fechado num cofre de gelo.                                                                    
Reduzem-se as sensações ao calor do braseiro e o corpo, o corpo              inteiro, mergulha e afunda-se no aglomerado de casebres sombrios e caminhos escusos e lamacentos.
Imerge o pensamento no alguidar de barro vidrado                                                                                                   - meio de água morna assente na trempe de ferro -                                e lava-se a alma na passividade das nossas limitações.
A água encardida que escorre até aos pés nus                                         escoa e some-se no fundo dos vales, numa corrida frenética                                          que ninguém pode alcançar.
As sombras descem, então, por essa fugaz energia                                                                      depositada no fundo do tempo, na dor física, na lança espetada                  no lado esquerdo - esse buraco negro a que chamam remorso.

Foto de João Cabral no Pexels

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